Alguns contos incrivelmente curtos escritos em momentos de ócio

Escrito na hora do almoço de algum dia de trabalho de algum ano, entre uma treta e outra.


new message

connection

São 1h37. Uma noite fria e chuvosa, alguma coisa no fundo da mente impedindo que o sono venha. Ela está na sala, sentada em frente à tela do computador, uma luz fria que atinge o seu rosto, enrolada no seu cobertor. O ícone “Conexão dial-up” está selecionado. Há algo de hesitação no movimento da mão ao teclado, mas ela balança a cabeça e pressiona enter.

Poucos segundos depois, através dos alto-falantes acoplados no monitor, ela ouve o sinal de conexão do modem, aquele ruído estranho que ela sempre ouviu por anos e anos e ainda assim não se cansou dele. Aquilo não era apenas um ruído estranho, mas também uma chave. Uma chave para abrir a conexão com a internet, a Grande Rede, aquela que veio para conectar a tudo e a todos, em qualquer lugar, a qualquer horário. Uma sala de estar universal, onde todas as pessoas do mundo estariam literalmente ao alcance das suas mãos.

De repente, surge o pequeno ícone da conexão no canto inferior direito do monitor: dois pequenos monitores verdes ligados entre si através de um cabo, piscando alternadamente. Bytes saindo, bytes entrando. Mensagens traduzidas em sequências de números que, como que por mágica, são traduzidos de volta às palavras originais e entregues ao destinatário.

Conexão estabelecida, agora o próximo passo: abrir o programa de mensagens instantâneas. A internet permite não apenas contactar pessoas sem sair do lugar, mas permite fazer isso de maneira quase imediata — você aperta no botão “Enviar”, e em questão de milissegundos sua mensagem está no computador do destinatário, sendo indicada por um característico ícone piscante. E mesmo que o destinatário não veja a mensagem no momento em que foi enviada, ela lá estará assim que o programa for aberto. E então, o destinatário responde a mensagem, e esse ciclo repete-se muitas e muitas vezes ao longo dos dias chatos e noites insones.


icq

Ela abriu o programa de mensagens instantâneas, e depois de alguns segundos alguns nomes aparecem em vermelho, e outros em verde. Um desses nomes em verde, em especial, lhe captura a visão — e também faz o seu coração aumentar o ritmo das batidas. Aquele nome, que ela já conhecia faz tanto tempo e que sempre foi algo que lhe alegrou ver, agora é algo que traz inquietação. Algo aconteceu, e algo precisa ser dito. Lentamente, ela move o mouse e clica duas vezes naquele nome. Uma janela se abre, mostrando as últimas mensagens trocadas dias atrás, mensagens que trazem boas lembranças, juntamente com um cursor piscante, no lugar onde a nova mensagem deveria ser escrita.

Ela olha para o cursor, e fecha os olhos. Ela precisa mandar uma mensagem, mas não sabe o que escrever. Tem medo de ser mal interpretada, tem medo da mensagem ser ignorada, tem medo de nunca mais conseguir trocar uma mensagem com aquela pessoa. Ela aperta as mãos, e um filme passa na sua cabeça, todas as coisas que aconteceram. Ela precisava escrever aquela mensagem, nem que fosse pra ela mesma se sentir melhor e tirar aquele peso dos ombros. Ela abre os olhos. O teclado parecia grande, muito maior do que normalmente fora, e cada tecla parecia afundar na mesa. Mas ela escreveu, e depois olhou por longos minutos para cada palavra, cada frase.

Ela levou o dedo à tecla enter, mas no último décimo de segundo hesitou novamente. Olhou de novo as palavras, releu várias outras vezes, fechou os olhos e pressionou a tecla com força. O barulho ecoou pela casa vazia.


“oi, eu sei que eu fiz merda. me desculpa. vamos conversar?”


São 2h03. Ainda de olhos fechados, ela ouve um som, indicando que a mensagem foi respondida.

Sem hesitar, ela abre a mensagem. E, pela primeira vez naquele dia, ela sorriu.