Escrito durante a noite quanto tudo está mais calmo e eu consigo ouvir mais claramente meus próprios pensamentos, o que pode ser bom ou ruim. Hoje está sendo bom. E vou aproveitar um material que eu escrevi depois de dormir por uma meia hora numa poltrona de uma longa viagem de avião.


cabos

"Mas esse sempre foi o seu sonho."

Eu sempre ouço essas palavras quando eu fecho os olhos e começo a cair no sono. Um encorajamento, um lembrete, um aviso. O meu sonho, quando eu era apenas um aprendiz de operador de cabos carregando rolos de fibra ótica de bueiro em bueiro pelas ruas da cidade, era chegar ao topo, literalmente - a infraestrutura que controla toda a rede de energia e dados fica no topo das construções que se erguem além das nuvens, tanto pela conveniência de poder estender quilômetros de cabos aos prédios inferiores quanto pela segurança dos dados. Comunicação sem fio é algo fácil e barato hoje em dia, mas todos estão ouvindo em todos os lugares e privacidade de fato só existe transmitindo seus dados em um pulso de luz dentro de uma fibra ótica. Não foi fácil chegar aqui onde eu estou, depois de me vagar por lugares escuros e úmidos por anos, e agora me vejo contando com o conforto de uma cápsula com temperatura agradável e bem equipada para cuidar dos imensos conduítes por onde passa tudo que entra e sai da cidade.

O software de diagnóstico finaliza e com um bip me faz abrir os olhos. Vejo o ponto de falha, "Cabeamento T568A/Junção 232-Branco-Laranja-Azul", e pressiono o botão "Navegar" visível em AR. Em menos de um minuto chega a cápsula de transporte, onde eu entro e me dirijo ao ponto de falha citado. A cápsula flutua sobre trilhos magnéticos e praticamente não balança, acelerando e desacelerando suavemente em direção ao meu destino. "TempoEstimadoChegada: 7min32s". A monotonia faz pesar meus olhos.

Quando novamente os abro, estou parado em frente à junção, um ponto de conexão entre os cabos que se estendem por quilômetros para os dois lados. Usando manoplas especiais, tomo controle de duas grandes mãos metálicas, cada uma passando do dobro da minha altura, acompanhados de um drone que servirá como os meus olhos. Olhando pela projeção no vidro da cápsula, uso as grandes mãos para remover um imenso cilindro metálico, levando-o para a frente da cápsula e removendo o escudo exterior. O software de diagnóstico já apontou a peça defeituosa nesta junção marcando com um círculo vermelho projetado no vidro mas eu sequer preciso desse auxílio - meus olhos treinados claramente identificam a falha como um emaranhado de fibras óticas fundidas entre si, comumente o resultado de muitos pulsos de luz lançados ao mesmo tempo e convergindo numa mínima imperfeição de uma das fibras, superaquecendo o conjunto. Solicito uma reposição destas fibras e logo um drone chega com o material e com as ferramentas necessárias, esperando apenas a última confirmação para iniciar o seu trabalho.

Exatos 47 minutos e 23 segundos depois o drone finaliza o reparo, e volto a usar as grandes mãos para recolocar o escudo e reencaixar a junção no seu lugar de origem. O grande cilindro se encaixa no fecho magnético com um grande ruído metálico. Sinalizo os operadores para que restabeleçam a conexão, e depois de algumas centenas de PB transmitidas com sucesso meu trabalho está terminado. Reparo finalizado, sinalizo a cápsula para retornar ao topo da construção. Mais um dia de trabalho chega ao fim.

"É uma pena que você tenha decidido ir."

Ouço essas palavras antes de entrar no elevador para a superfície. Deixo o meu crachá no local designado, destruo todas as minhas chaves de segurança, tento acessar o sistema sem obter sucesso (nunca é demais se certificar) e entro no elevador. Já na viagem para a superfície, deixo uma pequena mensagem de voz para os meus agora ex-colegas de trabalho, e sigo o meu caminho.

De fato, trabalhar neste lugar foi um sonho que sempre tive, e no tempo que eu estive por lá pude conhecer pessoas inteligentíssimas, os sistemas mais avançados já concebidos pela humanidade até os dias atuais, e também pude aproveitar oportunidades ímpares.

Mas no fim das contas era só um trabalho, e posso dizer sem nenhuma modéstia que fui um ótimo trabalhador. Fiz o possível para realizar as minhas tarefas o melhor que pude e propaguei o meu conhecimento para todos que quisessem aprender. Advoguei por mudanças, tive sucesso em algumas, não muito em outras.

Depois de pensar bastante, resolvi economizar por um bom tempo uma bela grana, e quando percebi que seria o suficiente enviei o memorando AC-11.802 comunicando a minha decisão.

"Tanto esforço depois de todos esses anos, pra agora jogar tudo pro alto. Eu espero que você saiba o que está fazendo."

É o que diz a mensagem que eu recebo assim que chego em casa. Não dou muita bola, porque hoje mesmo já começo no meu novo trabalho.

Não abandonei os cabos, muito pelo contrário. Agora o meu equipamento são cabos para guitarra.

E pedais!